Percurso de uma linha, 2011

Linha:
“Curso ou direção seguidos por qualquer coisa em movimento.
Traço visível ou imaginário que separa duas coisas contíguas.

Percurso, via, rota. Direção contínua em determinado sentido”

Queria dividir a casa da Rua São Francisco ao meio. Uma casa desocupada, sem uso, irregular no contexto formal urbano, disponível, livre para qualquer ação. A linha, linguagem permanente em meu fazer artístico, foi a lógica imediata que escolhi, como solução simbólica a intervenção. Esta seria minha resposta, ao mesmo tempo um ato de partilha e uma oportunidade de experimentar a expansão da pintura em campo tridimensional.
Na altura dos meus olhos, iniciou fina, cuidadosa. Passou por portas, janelas, tomadas e acabou se modificando, entre conversas com cada colega de trabalho que encontrei no caminho. Entrou em novos planos desenhados, desvirtuando o real. Subiu, sumiu. Retornou em expansão, contaminou o espaço. Atravessou paredes, fez caminhos imaginários. Tornou-se um traçado presente sem, no entanto, estar sempre à vista.
Fui levada pelo prazer da experiência, deixando o fazer tomar conta sobre o planejamento, sobrepondo a tarefa racional, deixando a execução em estado de deriva. Permiti modificações. Mais do que traçar uma linha horizontal contínua no perímetro de toda a casa, me deixei encontrar em bifurcações, situações que modificaram esta linha ao longo do tempo que permanecemos em grupo, numa espécie de reconstrução desta casa sem identidade, condenada à demolição.
Foi uma oportunidade de comparar o desejo de realizar uma pintura em um campo ampliado e sua efetiva execução. Longe da tela lisa e preparada, estava diante de novos problemas de pintura. Pedra, reboco, lambri de madeira - superfícies rugosas. Meu pincel ficou sujo de teias de aranha, traças e cupins. Situações adversas, entre a escassez de água e luz, o tempo reduzido para as atividades entre o pensar e o fazer, e ainda, o cansaço físico. Bem diferente do conforto do atelier, dos materiais à mão, das facilidades e disponibilidades que usualmente nos cercamos.
Mais uma vez repeti o gesto da linha e mais uma vez obtive um resultado diferente. Esta foi uma linha de horizonte, de fluxo, ação, movimento. Gerei um encaminhamento, um percurso por onde pode se descobrir um pouco de cada experiência realizada nesta casa. Significados artísticos correm em várias direções e desta vez fico com o caráter relacional.
Ao invés de ruptura, se sucedeu o contrário. No jogo simbólico de cortar, terminei numa tarefa de união. Estive menos interessada em meu trabalho exclusivamente, e sim no resultado conjunto. Quanto mais o tempo passava, o envolvimento aumentava. Mais tempo tivéssemos, mais esta linha estaria conectada nas intervenções, mais conversa entre os trabalhos estaria acontecendo, mais esta seria uma atividade una. A linha em seu papel de amarra, buscou a liga de todos nossos pontos.
Pontos de costura de um grupo que fez desta casa seu campo de experiências – de um laboratório á uma instalação. A casa da Rua São Francisco, tomada por nossas ações foi transfigurada em local de exposição. Ali estão resíduos de um exercício de liberdade artística e um convite à reflexão.

Laboratório de Ações Urbanas

Karen, Maio 2011